21 de agosto de 2007

No chão da cozinha

Derramadas ali estavam as sobras do vício, nos azulejos velhos da cozinha reformada.
Subindo com um olhar deslizante, começando pelos sapatos pretos e terminando no hematoma que surgia na coxa esquerda, queixava-se dos próprios sonhos borrando toda a maquiagem, mordendo os lábios entre soluços já enfraquecidos pela bebida. Sabia desde o início do maldito dia que estaria ali quando todos fossem embora, rindo sarcasticamente de volta para suas vidinhas.
Metendo as mãos entre os cabelos, um emaranhado sem nós, buscava um conforto antigo dos tempos em que, só, encontrava-se bem e satisfeita. Ali no chão da cozinha era outra, descontrolada, com o corpo e o copo largados, sentia um profundo desapego e, mesmo de modo estranho, ria da própria desgraça com lágrimas escorrendo até o frouxo sutiã.
Em vinte minutos levantaria dali, iria para cama, sozinha, e quando acordasse indisposta no dia seguinte, descobriria e ligaria para o número deixado no bolso de seu casaco verde.

15 de agosto de 2007

Amigos (e Amantes)

Acordam as emoções, e atrás delas vem o resto: os sentimentos, os apelos físicos, as pequenas confusões mentais, a música de ontem.
Entramos no mundo dos outros e os outros no nosso, no metrô, na esquina, entre os telefonemas matinais, as perguntas incoerentes, as risadinhas abafadas, a dedicação.
Mal são sete horas, dessa manhã inesperada, que só existe uma vez, e estamos dedilhando os afazeres, desejamos café, uma mesinha, uma conversa descontroladamente cultural, mas perdemos tempo (e como adoramos isso) com as próprias risadinhas abafadas, aquelas de dois minutos atrás, as de sempre.
Rabiscos, olhos abertos por todo o papel, rostos estranhos, uma busca pela inspiração, ou pelo menos por uma ordem na criatividade... impossível, queremos algo além, aquilo que chamam de liberdade talvez, mas preferimos algo muito mais doce (e econômico): sorvete. Principalmente o compartilhado, o que nos faz rir absurdos na hora do almoço, a nossa conveniência preferida.
Foram-se as horas e passamos por todos os picos de despreocupação e preocupação, igualzinho à bolsa de valores, uma tensão necessária, que engolimos todos os dias, e não é nada sério.
Nós somos os próprios amantes, sibilando nas noites o futuro, descontando os problemas, envolvidos em mexericos atrás das paredes, rindo, sorrindo... dormindo.
E somos os melhores nisso.

9 de julho de 2007

Crenças Opostas

Mesmo o que nos mete medo pode ser corrompido. Faz-se saber que aqueles que não acreditam na voz do povo têm dificuldades para conhecer a si próprios.
Não falo de deuses e demônios, mas sim do que há por dentro, aquilo que pensa duas vezes no mesmo momento, entre frases internas. Acreditar nesse descontrole não deve nos levar ao egoísmo, a vingativos desejos sem razão, devemos brindar essa pequena descoberta numa mesinha própria com risadas íntimas e totalmente particulares.
Sortidas crenças, jogadas de um lado pro outro, inegáveis, infalíveis, regidas por um poder centralizado, bobagens teorizadas, o que vem de dentro é pior, tão mais divertido, e desacreditar não é um crime, é um simples querer sem consequências.
É permitido inventar sua própria forma e transformar sua percepção num lindo caleidoscópio, sem deixar de lado suas origens, suas entidades figurativas, imagens de um tempo em que não se permitia saber de si, exceto os detalhes externos.
Crer é relativo, é ocasional, acontece, aparece e não há nada do outro lado da ponte em que você se encontra sentado. Isso apenas porque você não se deu conta de que está aguardando algo do outro lado, quando deveria acreditar no que te faz ficar de pé ou em onde você está de pé.
Para tanto é preciso deixar-se em paz, é preciso mistificar os anseios de dias que já se foram, desconceitualizá-los.