5 de fevereiro de 2010

Flor

Ela deslizou os dedos pela mesa da sala à caminho da cozinha, e trazia junto ao corpo, segurando como podia, um conjunto de copos plásticos laranjas. Sentia-se assim, translúcida, invadida pela luminosidade da tarde àquela hora, desejada e cercada pelo Sol, como os copos, como as pernas alheias sacudindo debaixo d'água na piscina. Não podia escapar deste sentimento, essa coisa estranha que era a esperança - e talvez não fosse isso - quando esparramada sobre o coração, uma rédea que fazia-o trotar bonito, e um leve arrepio percorria todo o corpo; ela sorria.

E enquanto suava mais, pelo nervosismo e pelo calor dos fundos da casa, revendo as coisas do almoço, se estavam em ordem, se todos estavam em ordem, parou um momento para ouví-los. Discutiam, animadamente, sobre o jogo de quarta, uma vitória; Sofia piscou duas vezes, e encontrou apoio na bancada da cozinha, abraçou-se, em dúvida, cismada, percorrendo com os dedos do ombro até a cabeça, e nela encontrou uma flor pequenina, um jasmim meio murcho, pálido. Comeu-o.

Viu-se minutos antes, recolhendo os copos, quando apareceu-lhe a surpresa, chamando seu nome, e toda molhada, vestindo um biquíni roxo: "Achei o seu presente de hoje." E recebeu ali o jasmim no meio dos cabelos, junto com um beijo na testa; rápido e seco, passou um vento, mas ela estava segura de que a flor não se desprenderia, já que não pensava nela.

7 de janeiro de 2010

Sobre o deserto

Há em algum lugar aqui perto - que ainda é distante - um deserto vermelho e marrom, um espaço aberto e imenso; dancei no deserto por noites inteiras, desenhei constelações no céu e no chão, e ele me deu calor e frio, me fez cair em amores pela solidão, onde eu me entregava perdido à uma lua cheia, aos flamingos dispersos, ao sofrimento do Sol em morrer no horizonte; conheci meus sentimentos mais egocêntricos, minha única proteção contra toda a secura, contra às plantas e seus espinhos, feri-me tantas vezes tentado à encontrar uma novidade.

Eu via, todos os dias, nuvens enfileiradas deslizando até as montanhas, e nelas reconhecia rostos, formas, explorava os cantos brancos das lembranças, e quando não havia mais nenhuma no céu, eu me questionava mais uma vez, sem buscar razão ou sentido - há muito que sentia medo em tentar encontrar essas duas coisas tão diferentes nos meus atos ou em qualquer objeto diante dos meus olhos -, e dentro de mim seguia os passos até um lago fundo e tranquilo, e diante desses antônimos, via minha realidade no deserto e meus desejos represados e silenciosos, queria largá-los na terra e dela fazer brotar algo que não tentasse fugir, ou algo que não fosse tão frágil e me ferisse ao toque, ou morresse em minhas mãos.

O mais difícil era entender que as lágrimas, tão benignas aos olhos, vinham em minha ajuda, mas o deserto nunca iria mudar, só havia uma chance, uma alternativa... e eu preferi não dizê-la, ou sequer realizá-la.

Só me restou o deserto, livre e óbvio; seco e caótico.

29 de dezembro de 2009

Onde habita a sinceridade

Ana soube, ao abrir a estranha caixa azul que guardava no armário, o que viria pela frente. Seria a soma de todas as sensações que evitava - a felicidade de um modo geral - cercando-a por todos os lados, deixando-a sem chances para fugir, e mesmo assim estava calma.
Junto com a caixa havia um vazio evidente em seu peito, como se a caixa substituísse momentaneamente alguém que estivesse muito longe para suprir a falta. Para ela, dona da caixa e também de sua liberdade, era como uma perda de independência, pelo simples fato de estar atada emocionalmente ao outro. Sentiu-se fraca e insuportavelmente insegura, não era mais capaz de enfrentar o acaso e principalmente, não sabia como lidar com isso.

Hesitou olhar pela janela, estava sensível demais, mas encarou a mesa e os objetos ao redor, achou-os mais bonitos, coloridos, talvez mais brilhantes, quando na verdade nada tinha mudado.

Pela primeira vez, Ana admitia para si, e com muita dificuldade, que estava carente de afeto e atenção, e quase ouvindo o ritmo da sua ansiedade. Percebeu enfim que não havia como sair daquela situação sozinha, não é um trabalho solitário este que o afeto nos dá e que nos incomoda tanto; lutava contra princípios e definições muito rígidas, escolhidos e mantidos conscientemente, mas que agora vinham perdendo o lastro.

Por mais que parecesse óbvio, não conseguia resumir verbalmente seus sentimentos no puro e simples amor, seria exigir demais da sua nova empreitada pela novidade. Preferia não saber, não ter a certeza ainda, mas a única coisa que sabia, e disso não tinha dúvidas, era que, só agora, estava disposta à tentar.