4 de maio de 2008

As Ondas

Rebatiam a eternidade, e cada dia era novo, teve esse pressentimento, essa vontade de ter o encanto novamente. Viu nas ondas uma maneira; que importavam os sonhos nesses dias confusos e escuros? Durante a chuva, e mais ainda, durante a rotina, ela encontrava quem valia à pena, quem a fazia resgatar à si mesma das ondas, aquelas coisas envolventes. Com elas, porém, aprenderia sobre o tempo - ah veriam! veriam como ela sabia de si! - e como ele molda a gente, bem como o rio descreve vales, como sorrisos marcam nossa felicidade, o tempo silencia vozes.

Em um desses dias, notaria tudo aos poucos, viveria a dor, questionamentos; um girassol tristonho a murcharia só por sua existência, e perguntava-se: o que há nesta morte? o que há nesta vida? de que me servem as cores das unhas?

Ainda não enxergava além e nem poderia, o processo desmentia tudo, e vomitaria muitas vezes o bem e o mal sem saber distinguí-los; antídotos e venenos, minha querida, são ondas apenas quando se encontra o outro lado do espelho, mas ela saberia, ela encontraria; ela em um novo dia. Ou seu nome não era coragem.

2 de maio de 2008

A Praia

Aquela imagem tornou-se um pensamento esquecido, um esquecimento. Não estava feliz agora? Tinha feito todos esses meses o que mais amava desde sempre, desde aquela vida de loucura, desde o dia na praia.
Havia um vento pesado e quente naquela hora, mas nada parecia atingir o lugar, o pequeno cais acima do espelho d'água, a areia suja de pedregulhos, a vibração de pequenas ondas, não era mar e sim um lago, uma represa. E nada se via além de mato e montanha e água e nada. Mas haviam nuvens, e vento e calor, aprisionou ali alguns sentimentos novos; a infância já estava longe demais para revolver as entranhas, sendo assim, a imagem dela e de outras atirando pedras lisas na superfície para ver quem conseguia o maior número de saltos veio, mas retirou-se rapidamente. Não havia espaço no momento, o foco assimilou apenas luz - regras de luminosidade na fotografia, flashes, a exposição, regras, regras, regras - apenas a luz sobre a pequena praia entorno da bacia fria, pois todo o Sol se fora nos minutos dispersos; sentiu-se perdida, com medo, da onde tudo isso vinha? Por que agora? Praguejou com vontade contra alguém, ou algo, superior ou igual, tentando afastar as nuvens, a fúria, o erro.

O anel, o símbolo, o casamento, jazia no fundo frio do lago e na fonseca repleta de mágoas da sua criatividade, do seu sorriso. Naquela noite, apesar do frio, não vestira calças, ocupou-se em alargar com elásticos todas elas e sentiu o primeiro comichão de uma vida que não era sua.

17 de abril de 2008

Estranho Sedutor

A idéia de controlar o próprio destino, como fazia de fato, o deliciava. Havia em seus olhos pouca malícia, porém um necessitar, uma chama ardente que facilmente confundia os menos intuitivos.

No momento, sentado e vagueando numa mesa de jantar, observava a todos como se fossem coisas a desvendar, na verdade eram, pois poucos o conheciam e apenas aquela ao seu lado, cuja perna esquerda encostava de leve na direita dele, debatia sem dificuldade alguns pensamentos e opiniões sobre assuntos simples: o dia, a comida e a bebida.

Até que rompeu-se a realidade; girando num mundo particular, esqueceu vozes, cor e paladar, isso porque à mesa estava um desejo e desejos sempre remetem a outros desejos, principalmente aqueles não realizados, transfigurados em tristezas flutuantes que se escondem onde houver espaço, nos cantos empoeirados de uma sala, no reflexo de espelhos constantemente vistos, em abraços e rostos. Mas este veio à tona em um leve roçar acompanhado do riso da tal mulher representando felicidade ao seu lado; viviam ambos num presente inquieto e não encontravam qualquer esboço do passado em suas vidas, era nisto que ele pensava enquanto sentia-se absorvido para longe.

Adentrou em um intervalo entre horas, uma contagem invisível e só mais tarde conseguiria entender como se perdeu durante o viver alheio naquela mesa, um inferno na verdade, corroía-o por dentro toda aquela situação tentando alertá-lo da existência impermanente de todas as coisas - gargalhadas terminavam na outra ponta - e levantou-se sem um curto destino certo. Foi para onde supostamente queria ir e isso bastava simplesmente porque poderia ir a qualquer lugar. Livre, não de si, sorriu levemente nutrindo ainda o sentimento de sedução anterior ao desconforto, estava ali para alcançar alguma satisfação com a tolice das pessoas, reconhecê-las por detrás das máscaras bizarras. Esquecia porém do desgaste exigido pela tarefa, uma constante intensidade nas ações que arrebentava dor em seu prazer.

Cansou-se do vício. Até o próximo estranho sedutor sorver inquietude e ele novamente perder-se na hora do jantar.