12 de novembro de 2010

Sob o Sol de escorpião

Certamente não foi a sensação do rosto lavado ou o conforto do ambiente que fizeram-no sorrir. Havia mais do que o abstrato e o material percorrendo os ares de sua cabeça; era todo aquele mistério.

Não se pode negar, é claro, que o Sol vinha lhe agradando, mostrando o afeto de todas as coisas e todas as pessoas, não estavam todos loucos demais? Mas também instingantes demais? O que era essa nova onda que abatia as pessoas de rostos cansados que as deixava com os olhos tão vivos? Ninguém sabia responder qual era o segredo, ninguém tocava o próprio corpo para desvendar - quem sabe - a origem oculta do carinho dos novos tempos.

Maior que uma tola esperança ou que a saudade do passado, estava ali, brilhante e sedutora, a calorosa realidade.

2 de novembro de 2010

Outra vez

Havia um mundo em seus olhos que me buscavam e me atraíam; e eu tentava, calmamente, encontrar a resposta mais fácil, para colocá-la em uma frase, como num embrulho perfeito, que eu pudesse passar com todo o carinho às suas mãos, como no dia em que me entregaram um pássaro às minhas, e eu senti que ali, morna e afoita, estava a essência da liberdade.

É quase Verão, outra vez.

11 de fevereiro de 2010

O escritor e a colecionadora

Mais preocupada em encontrar novas conchas do que novas amizades, Maria estava meio indisposta com o Sol quando enxergou o "moço dos cadernos azuis", como ela contaria mais tarde.

A praia onde estavam era quase deserta e, naquela hora, só havia a barraca do jovem, com seus pequenos cadernos azuis, e Maria, do alto do seu pequeno tamborete de doze anos de idade. E encontrar os olhos dela, fixos no dele, o fez temer por alguns momentos.

Muito educada, o cumprimentou, apresentou-se e disse o que estava fazendo. "Procurando conchas maiores, meu irmão e eu colecionamos, hoje também estou procurando algumas mais claras, mas está difícil."

Ele, com um quê um tanto perturbado, apenas sorriu levemente. Hesitou, mas disse à ela que poderia chamá-lo de "Beto".

Ambos conversaram muito rapidamente, ele precisava terminar o que estava escrevendo, e ela questionou a razão da pressa, e o conteúdo da pequena página de um dos cadernos.

"Se eu não terminar logo, não poderei te entregar."

Segundo ele, o que escrevia era uma verdade, uma história que ele mesmo ocultava dela, antes de conhecê-la.
Obviamente, Maria ficou profundamente confusa com tudo aquilo, mas por curiosidade, não quis interrompê-lo. Afastou-se um tempo depois, e continuou sua busca por mais conchas. Quando retornou à barraca só encontrou um página com uma concha como peso em cima.

"Sei que não irá entender a princípio tudo aquilo que está escrito aqui, mas não poderia contar de outra forma. Sei também que sua curiosidade irá levá-la à cometer, talvez, a quebra do meu pedido de silêncio, mas, menina, quando me encontrar, esteja atenta aos próprios sentimentos."

Ela iria ajudá-lo.