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22 de agosto de 2015

delta

Meu caro Pégaso,


Você se lembra da noite no quebra-mar? Talvez a única por lá, e para mim a mais importante. Lembro do meu medo de que a conversa caísse no lugar comum e de como me desfiz, pouco a pouco, da personagem que me envolvia.

Quantas palavras, Pégaso, dediquei à fantasia das nossas memórias, quantas vezes fui ao fundo de cada diálogo para recuperar cada lágrima, mágoa ou sorriso que me parecesse importante. Quantas vezes o mar, o céu, a praia e o barquinho foram minha resistência à porosidade dos nossos afetos, bons e ruins, gentis ou amargos.

Era inevitável que a sorte nos trouxesse até o momento em que estas memórias surgissem desarmadas, e que nosso reencontro após tantos anos fosse um previsível resto de alegria difusa, amarela, com a textura de uma liberdade simples, quase infantil. Não somos e nem éramos, (um diante do outro) como poderíamos ser?

Apressamos a primavera com nossas escolhas, Pégaso, e mesmo que o destino nos envolva em uma futura charada, só posso acreditar que a minha maturidade trará conforto onde houver dúvida e afeto onde faltar o desejo. Não cabe a mim continuar o desenho de uma história que não terá prosseguimento e cujo fim, após um trajeto tão tortuoso, é um delta de águas claras que amansa diante do mar.

Você tem visto o céu? De que cor ele é?


E.


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Esta é a última postagem deste blog. 


7 de outubro de 2014

outro céu

Olavo,

A última palavra: o silêncio. 

E de uma forma desesperada vi as nuvens tornarem-se negras. As memórias, os desejos, tudo veio abaixo. Compreendi que o mundo exigia um sacrifício; e diante do novilho, branco sentimento, fraquejei.

Mas sua mão cobriu a minha sobre a pena. 

A última palavra, Olavo, permaneceu comigo.

15 de agosto de 2014

vigília branca


Meu caro Pégaso,

Sob o céu branco do nosso reino, vejo, etéreo, o teu ninho; de paredes em guarda, ansiosas por qualquer momento ou gotejo de bica. Sentinelas da tua vontade - imperativa mesmo na tua ausência - permanecessem mudas em minha imaginação.


Ah, Pégaso, não fossem os anos, eu ainda seria tola; não percebes que sagrei-me monja em teu monastério? e como copista das tuas palavras ébrias, admirei o horizonte a cada voo, fiz dele um amigo, uma esperança - jamais promessa - mas hoje

hoje esbarrei em uma das tuas penas brancas e ela me escapou suave entre os dedos, deslizou sobre a fruteira vazia e pousou sobre o chão como um inseto emplumado.

Encarei-a, minutos a fio, e não entendi o que se passava.

Lá fora tudo estava pálido; eu corei vermelha, quente. E entre o sentimento de roubo ou acidente, impûs um silêncio: não seria minha, tampouco tua, já que como todas as outras - e a ti mesmo -, também não a abandonaste?


20 de julho de 2014

sábado

todos os dias imagino
se me imaginas cruel
a sorrir liberto, mirando o céu

todos os dias imagino
que segues construindo
uma vitrine de cristal
um lar manso feito de sal

[quando]
todos os dias me imagino
livre, caminhando contigo
voltando ao sonho, ao crime

todos os dias observo
centenas de pássaros em voo
e permaneço no chão
trôpego, atado pela razão

todos os dias este silêncio:
o piano, a boca, o peito

todos os dias
este sábado inacabado



22 de maio de 2014

Rosário II


Rosário, 

difícil dizer o que me corrói;  cerquei-me feito um louco de paredes confortáveis, e neste cubículo onde escondo minhas dúvidas disse hoje ao teto sobre as suas que também eram as minhas; e ainda estando tão lúcido, tão consciente - como se uma estrela brilhasse difusa em minha testa - há este último véu retirado que não me revelou nenhuma resposta sobre os sentimentos preciosos, encontrei no lugar ferramentas dispostas lado a lado: um binóculo e um espelho: Rosário, alguém em mim me diz que as pistas estão no futuro e no passado, e que à frente de mim e antes de mim permanece um eu de sobreaviso;


haverá futuro, Rosário, neste mar de observações feitas, nestas intensas descrições mentais dos afetos alheios, nesta prática diária de contemplação daquilo que chamo de amor? por vezes plástico, por vezes orgânico.


de um jeito ou de outro, não encontrei motivos hoje para o binóculo ou para o espelho.

D.

12 de março de 2014

ciranda

dançam no teto
todos os teus anjos
descem invisíveis
esticam os dedos, frios
ao calor das gargantas

amam, agigantando-se sobre os teus sonhos
e te sopram no rosto a mesma máscara que usam
e que não vês
tu és aquilo que jamais serão

do alto do teu altar perfumado
afiam o silêncio à minha presença
abrindo com ele a tua boca
e pondo aí uma aranha

segues mimético
preso ao realejo do sagrado
um pássaro indecifrável

17 de fevereiro de 2014

porcelana

Eu não havia reparado o olhar ansioso de Silvia quando ela entrou no quarto provocando pânico numa pequena lagartixa. Metade de sua blusa estava úmida - ela havia lavado a louça - e a partir deste fato eu compreendi que seus poucos minutos de trabalho na cozinha criaram expectativas sobre a nossa iminente conversa aquecida pelas sombras quentes do abajur.

- me conte - e ela deitou sobre a cama, tirando o sutiã sob a blusa, como uma adolescente - como ele é?
Não era possível iniciar uma descrição simples, eu sabia perfeitamente disso, e enquanto ganhava tempo ligando o ventilador - o ruído baixo me ajudava a pensar - a imagem de um vaso de porcelana ricamente desenhado me veio à cabeça: belo, íntegro: único. - absurdamente frágil.

- ele não tem personalidade própria - resumi. e internamente eu ainda visualizava Caio como o vaso de porcelana, fazendo sentido unicamente em um mundo de experiências e convívios muito particular, o qual eu não me via compartilhando.


Ainda que eu tenha condensado os detalhes, e começado de maneira determinista, Silvia alongou os dedos dos pés e, olhando fixamente para os lençóis, foi direta, o que significava que tinha entendido o cenário:
- bom, você é melhor do que isso, digo, por que está com ele? Há algo de errado com sua autoestima? - e riu. 
- talvez - eu sorri. Silvia era uma das poucas amigas com quem eu não precisava me armar de argumentos ou atalhos nos diálogos, não havia culpa ou remorso, jogávamos quase sempre com a verdade.  Isso ficou claro quando eu tentei uma desculpa esfarrapada.

- você sabe, eu ainda... não sei se sou capaz de sentir as coisas como antes
- que besteira - ajeitando a franja com um suspiro - não acredito nessa de ficar sofrendo ou remoendo o passado. acabou, não acabou?
-  acabou. - e o teto do quarto parecia aqui um pouco mais distante.
- a vida é uma só, não dá pra perder tempo com isso. mas, você sabe, é no conforto que a gente se sabota, não há nada de errado em conquistar temporadas suaves, aliás é pra isso que estamos aqui, não é mesmo?, só não dá pra dar uma de Buda e ficar embaixo da sombra esquecendo que o negócio é evoluir, seguir em frente. - mais do que nunca, ela me pareceu alguém no final da adolescência e não uma mulher com mais de trinta anos.

Eu fui dormir pensando em "temporadas suaves"; em mim ainda criança fazendo uma daquelas experiências bobas com uma semente de feijão, uma caixa de sapato, algodão e um pouco d'água. Eu fazia furos na caixa que pudessem ser fechados outra vez e, quando notava que a muda estava quase conseguindo sair por um deles atrás de um pouco mais de sol, eu fechava o furo. E assim sucessivamente, até que o broto definhasse.

Silvia dormira rapidamente enquanto eu sentia que iria acordar mais uma vez resmungando que a luz da manhã não era bem aproveitada naquele quarto tão bonito.

23 de janeiro de 2014

Expectativa

Expectativa, nefasta montanha
dura matriarca a se impor no horizonte

Expectativa, vigília infrutífera
hora aberta, hora nenhuma
boca vazia diante da lâmpada que não ilumina

Expectativa, selvagem sentimento
sábia dúvida que a tudo preenche
enfeita as vontades, libera os desejos
e diminui a verdade

Expectativa, insólita covardia
que antes de tudo é também coragem
um estouro faz a corrida

Expectativa, aurora branca
lembrança e esperança
nem começo, nem fim

Expectativa, um espelho sobre si
o avesso do céu

12 de dezembro de 2013

Adão

Eu o vi na sacada, castanho-mistério. Jovem, ar distraído, cem pensamentos por minuto. Quis resgatá-lo de seu próprio futuro. Tentei encarná-lo por alguns momentos, vendo a mim mesmo distraído numa janela escura. E, em dúvida sobre quais seriam os meus novos desejos, tentei nada, mas sê-lo. A janela fechou, me deixando apenas a visão das costelas formadas pela luz através das persianas. Permaneci. Quis compreender sua liberdade e reverenciá-lo pela fantasia que eu vivenciava, como se daquela varanda ele soubesse que a presença de alguém tinha sido necessária para encenar a noite, simbolizá-la, significá-la. E mesmo após ter ido me deitar, busquei aquela memória através do vidro e qualquer sentido nas coisas que me vieram à cabeça só bem depois: ele ali intenso, feito e exposto, ainda assim completamente irrevelado e distante, podendo ser o que eu quisesse; argila.

11 de outubro de 2013

O Menino

Escuridão
que apagaram as luzes
onde não brilha o Farol
cego e seco sobre o mar

Escuridão
que o Destino cobriu
do caminho fez atalho
do sentimento, mortalha

Quem conduz o menino?
e entrega a pena livre
sem prometer liberdade
segue o menino sem livro

Quem conduz o menino?
dourada estrela
ou grande anel
vê no menino o infinito

Evapora a noite numa canção
fecha-se o segredo com giz
abre o palco em azul
abraços com cicatriz

7 de setembro de 2013

dois planetas

sagrado universo construído
em teu desenho uma órbita de sal
teu senhor, vazio de orgulho
carrega uma máscara de vidro

e sob a dúvida de um eclipse
teu Arquiteto não vê o cão que morde o vigia
nem a mão que segura a guia
o que é verdade? o que é fetiche?

mas toda penumbra revela uma Vênus
todo ocaso, uma esperança
uma única estrela: uma única dança

mas se fazes deste círculo um espelho
e no céu encarna um Marte vermelho
ensinas a dois planetas, silêncio e segredo
despertas o ego, mata o desejo

2 de setembro de 2013

(sem título)

Adiante um caminho torto,
que de forma torta leva ao centro;
círculo perfeito, circumponto.

este imenso e engraçado desenho é dica para certos destinos,
cuja saída alcança-se pela paz de espírito
e por um coração-montanha que repouse em vivo silêncio (sobre todas as grandes salas da alma.)
e se não permites ter os olhos lavados, 
se dos estribos faz um cilício, perca-se;

ainda que o tempo deixe fosca a janela,
amareladas a culpa e a regra, desprenda-se.

23 de julho de 2013

Rosário

Rosário,

Foram suas mãos e seus cuidados que fizeram do jardim o pequeno palco de vida e expectativa onde pequenos pássaros e insetos fazem corte à natureza. Sua presença está em cada broto, flor e alegria desta visão que me acompanha todos os dias. É possível que eu encare o jardim como um lar, enfim. Lar: um conceito delicado e transparente. Lembro perfeitamente das nossas discussões homéricas de apenas dois minutos sobre como as coisas são difíceis de serem ditas com as palavras que acabamos usando, nós nunca chegamos à conclusão se os alemães levavam a melhor nisso por terem a definição perfeitamente construída para cada bizarra sensação que alguém é capaz de sentir - nós nunca soubemos nem mesmo isso, afinal. Mil dias, Rosário. Foi o que durou. Se há alguém ou algo capaz de controlar o destino das coisas como se fossem fios a correr emaranhados, é certo dizer então que a razão suaviza muito das nossas perdas acidentais e - para nós - inexplicáveis. Mas nosso caso não foi um acidente, não foi?

Acho errado algumas pessoas afirmarem que o que foi nosso permaneceu inacabado: eu não sei bem posicionar o início de tudo, venho esquecendo - inclusive - todo aquele meu longo discurso decoradinho, a história, o romance; os fatos ficaram maiores do que a própria história. Meu ponto é: tenho me perguntado o que fazer com isso: o jardim e você. Todos me dizem que é a minha velha preocupação com a forma das coisas, a matemática caótica que eu uso para compreender o mundo. Estão todos errados, você sabe. (ou saberia); não há lógica nesta vidraça imensa que está diante das minhas memórias. Não é como deixar um peixe morrer no aquário e simplesmente ir até a loja e substituí-lo por outro igual no mesmo aquário: nunca será o mesmo peixe - qualquer um poderia afirmar - mas o crucial, o mais difícil e que demora a escoar pelo ralo é: nunca mais será o mesmo aquário.


Não há qualquer dramatismo lá fora, Rosário. O jardim está vivo, robusto, intenso: repleto. Mas muda a si mesmo a cada dia, e sua sombra, seus arames para fixar orquídeas aqui e ali, escondem-se por trás do tempo das cascas das árvores, das folhas defuntas, das gerações milenares de formigas.


Talvez haja uma polemologia do afeto que demonstre como mesmo aquilo que é único - uma paixão, uma estrela no céu - é inevitavelmente menor, por definição, que a nossa própria existência. É a medida que nos constrói: duros ou flexíveis; rotos ou resistentes. Sugiro aqui, portanto, que o egoísmo e a vaidade são escolhas, e o pecado não está em escolhê-las, mas em permanecer consciente e cego diante das consequências.

Me desculpe, eu não deveria ter ido tão longe. Um dia espero ter a chance de lhe explicar como tudo isso é importante para mim.


D.

22 de janeiro de 2013

procurado

jovem afeto, onde posso encontrá-lo? em que visão - bosque, praia, castelo - encaixa-te com perfeição, para que eu também fique contente de saber da sua existência? pois o que eu tenho agora em mim é essa sensação que tu me escondes um segredo, que perdestes um fato de cristal em algum buraco para que eu  o encontrasse, e assim os teus domínios, teus vales, tua areia e escuros calabouços aumentassem; a cada busca ou cenário, sou obrigado a dar-lhe mais da minha própria ficção, percorrendo trilhas na ponta dos pés sobre as migalhas e contando os dias abrindo e fechando grandes portões com chaves tão pequeninas; jovem afeto, de que forma irás me assombrar agora? qual é a tua nova fantasia? e de que cor estará o céu no dia do nosso reencontro?

não me confunda os sentidos outra vez com teus sopros e silêncios

7 de janeiro de 2013

puro

hoje durmo ao teu lado com os pés sujos de terra, e me descubro inteiramente sujo, com os lábios secos; e assim invado suas cobertas azuis, deito sobre as tuas estrelas, onde repouso minha memória  - corcel branco de fita laranja -  sossegada; mas teu desejo é insípido, tua língua só conhece fresca mentira, e teu tato, tuas mãos, pele e curva mortal; nada compreendes do prazer, nada conheces do afeto entre os espíritos e nunca abandonastes tua satisfação infantil; e não percebe que és aquilo que condena, disfarçado pelo Tempo

enquanto sonho com borboletas no quintal.

27 de dezembro de 2012

cocar

seria possível fugir de tantas vozes nas paredes em tom pastel do metrô? e deixar-se guiar de olhos vendados de ideias, dispersos, esbarrar em um brinco no chão, esquecê-lo e lembrá-lo horas mais tarde - não peguei o brinco, quem pegou o brinco? - e do brinco passar aos anéis e lembrá-los nos dedos e em cada dedo uma mão que tocou-lhe diferente; quem?

Olívia, o carnaval exige mais do que o calor e o grito alto do seu nome em meio à multidão, o encontro dos outros e das coisas no chão; Olívia veste seu avatar de índia, morena assustada, não busca ninguém, observa e atravessa sem sentir que sorri ao vê-lo; quem?

e este zumbido do mar, do tambor, dos chinelos arrastando fantasias, homens e mulheres, cães brancos, alguém berra e alguém repete, comemoram o desencontro e os reencontros; Olívia segue, finge que procura algo na bolsa, quer ter mais tempo para si, quer encontrar na bolsa o caminho por onde continuar seu raciocínio, tenta evitá-lo - o rapaz que segue ao seu lado - mas não pode, ele rouba seu cocar, dança; alguém grita: Olívia!

Olívia abriga-se na índia, mas sem o cocar está exposta, fragmentada e o vê claramente - o rapaz à sua frente-  antes de; quem?

22 de dezembro de 2012

pondera

nega-me o prazer
fera indomável

nega-me a verdade
esfinge inabalável

nega-me a delícia
de ser eu
de morrer outro

pondera, sátiro
sobre tua pressa
falsa promessa

pondera
que é ninfa tua vontade
mas de cinza é feita
tua brevidade

e engoles os frutos
sem conhecer o sabor
também os putos
sem cuidado e pudor


pondera, carinho
amarga a manhã
em tua boca

guarda o beijo
atrás dos dentes
sob o travesseiro

junto ao outro
moço reluzente
a sorrir, sozinho






olhos roubados

roubaram-lhe o cheiro
o suor, a coragem
roubaram-lhe os olhos
não me encaras

roubaram-me o lugar
o reflexo no espelho

e sonhei teu sonho
teu rosto
lotado de palavras caras

para que não encontrasse
na manhã
certeza dourada
ou silêncio

e bebi da tua água
e cuidei da tua louça
importada, rachada

à quem revelas sorrisos?
sinceridades, suspiros

à quem oferece os nós
dos teus sentimentos
e afinas - a sós - o violão?

amemos, eu não

28 de novembro de 2012

César

levado pela destruição; destituído
desencontrado, jamais perdido

devora a serpente, infeliz
saliva a mágoa em minha boca
em nosso encontro feito de giz

dentro da sua armadura,
(te orgulhas?)
desonesto, finges o afeto

devora a serpente
engole o veneno
despeja as memórias
esqueces de ti, valente

a verdade é noiva do destino
e sua boca fará da violência
um diamante, um vestido

(...)

vá!
faz do meu rosto
conhecido por ninguém
caças um corço
ganha teu vintém

mas vá!
que teu pecado é segredo
e somente a aurora saberá
da ferida, do meu desejo.

11 de novembro de 2012

breve sonho num campo de flores


sonhou com um deserto que era feito apenas de flores; o nada no sonho era uma coisa só e a ausência uma presença absoluta.

perdida, procurou-se em meio as flores; os pés, os braços, estava ali, cercada de um cenário que nada lhe dizia; solta, livre. perdeu-se mais ainda.

e por horas viu-se muito, muito desencontrada com aqueles caules verdes e o tom rosa claro em contraste com o céu muito azul; estaria doida? não lembrava de ter - quando acordada - tomado nada que não fosse a água meio quente da garrafa; e encontrando a garrafa de água meio quente dentro deste sonho, encontrou também um escorpião vivo sobre a tampa.

lhe faria mal o escorpião? e o que ele fazia sobre a tampa da garrafa de água meio quente e não no chão ou nas flores? ocorreu-lhe que o escorpião não é um inseto e subitamente sentiu-se jovem e violenta.

tomou para si a garrafa, e viu o escorpião correr sobre seu braço e encará-la de cauda erguida e pinças abertas;

não foi a dor do ferrão sobre a pele ou a água a escorrer pelo seu rosto que a despertou daquele local tão estranho, mas a nítida sensação de que alguém a observava muito além. um outro lacrau, talvez.