9 de abril de 2012

pistache

eu tinha segurado certa decisões, Olavo, por muito, muito tempo; cadelas raivosas na minha cabeça que latiam ao portão para afugentar o bom senso, ou a falta dele, depende muito do ponto de vista.

mas eu acabei me sobrecarregando de pequenas mudanças que no final das contas não significavam muita coisa, quase nada para ser franca; eu lembro que cheguei àquele novo apartamento e achei que  - ali, estática, observando como a luz estava opaca por causa do dia nublado - todas as minhas palavras de ternura ao meu ego estavam entaladas na garganta, na minha fonte de autoproteção, como queira.

engraçado como esses pequenos-grandes-insights da mente são como chamas e querosene; desconfortável como eu estava, jamais imaginei - ok eu poderia supor muito superficialmente - que um ato singelo vindo de você, uma palavra tão vazia de outros significados, poderia trincar esta enorme geleira que eu mantinha sobre o que eu pensava a seu respeito e, pior, sobre nós, não depois de tudo o que eu já tinha ouvido ao longo dos últimos poucos anos.

- pistache, quero pintar uma parede daqui do quarto de pistache.

eu adorava sorvete de pistache, adorava pistache, e eu até mesmo gostava do som que a palavra pistache possuía e seu significado esverdeado, mas ouvir você trazendo à baila essas minhas associações foi desastroso; me pareceu completamente falsa a sua vontade - igual a tantas outras vezes você me disse alguma coisa com uma senhora convicção tão fina quanto um papel de arroz - como se afirmar que pintar uma parede de pistache, naquele momento, fosse uma linha muito agradável em um diálogo que um autor coloca para preencher o tédio mortal que vinha desde as últimas vinte páginas.

Olavo, eu olhei pela janela e o dia permanecia pálido, olhar o céu era como olhar para o espaço que havia entre nós: uma densa camada intransponível, turva e branca; sempre imagino que céus assim nunca irão abrir outra vez e essa era a minha impressão sobre nós dois, as coisas nunca ficariam claras ou - numa dupla interpretação - estavam claras demais.

não lembro de ter comentado qualquer coisa que fosse relevante depois naquela tarde, e a primeira coisa que fiz ao sair de lá foi comprar um sorvete, por mais que um pesadelo acordado onde eu só encontraria sorvetes de pistache nas cercanias me viesse à cabeça; o que eu quero dizer é que eu estava sóbria por dentro, muito cansada e lúcida da órbita de emoções que vinha seguindo.

ainda assim, me faltava coragem; e, céus, como eu me sentia burra.


29 de março de 2012

evidências dos seus olhos castanhos

desconcentrado, estava desconcentrado por estar concentrado demais, aéreo em pequenas multidões, como um leitor em praça pública, mas não havia livro, lia um corpo e movimentos, acompanhava os olhos castanhos em perfeita simetria com o suave desenho animado que era a boca, feita a dedo, num único borrão; mas o ritmo incômodo de todo o conjunto o deixava mais suscetível à admiração do estado em repouso - ainda que incessantemente vibrante - de todos esses traços.

e imaginou-se ali, fechado pela redoma de sombras como mero observador - quase ausente - notando com certa tristeza, o óbvio desconforto pela sua distância do objeto, tamanha ao ponto que só poderia descrevê-lo superficialmente: sua casca humana ainda fresca, frágil e mole; e poucas vezes o espírito afiado que tanto desejava ver mostrava-se além da conta; enclausurado na técnica, no esmero da sedução, na vontade - pura - de ser através de algo e não apenas ser.

cada vez mais tinha essa impressão que apenas olhos castanhos estavam a salvo de deixar transparecer a verdade pois eram comuns e naturalmente dissimulados, mas frente a frente, pares de mesma cor e profundidade, podiam muitas vezes sustentar-se num embate vigoroso de poucos segundos, mas que traziam ao espírito de seus donos o gosto um pouco aguado do empate.

2 de março de 2012

contra o poente

estranhos pássaros que esperam tanto no ninho, e experimentam com suas longas asas a liberdade aos poucos, apreciando os céus com certo desdém, uma vontade de não ser o que se é, de estar por estar e, sem rodeios, ignorando aos apelos dos outros pelo voo compartilhado;

e com tamanha arrogância da sua gentileza voa sobre nós, para longe, deixando-nos - os aqui amantes dos voos curtos - sem mais nos enganar, vai-se e não olha para trás, com assombro e silêncio, contra o poente.

igual a tantos outros.