11 de novembro de 2012

breve sonho num campo de flores


sonhou com um deserto que era feito apenas de flores; o nada no sonho era uma coisa só e a ausência uma presença absoluta.

perdida, procurou-se em meio as flores; os pés, os braços, estava ali, cercada de um cenário que nada lhe dizia; solta, livre. perdeu-se mais ainda.

e por horas viu-se muito, muito desencontrada com aqueles caules verdes e o tom rosa claro em contraste com o céu muito azul; estaria doida? não lembrava de ter - quando acordada - tomado nada que não fosse a água meio quente da garrafa; e encontrando a garrafa de água meio quente dentro deste sonho, encontrou também um escorpião vivo sobre a tampa.

lhe faria mal o escorpião? e o que ele fazia sobre a tampa da garrafa de água meio quente e não no chão ou nas flores? ocorreu-lhe que o escorpião não é um inseto e subitamente sentiu-se jovem e violenta.

tomou para si a garrafa, e viu o escorpião correr sobre seu braço e encará-la de cauda erguida e pinças abertas;

não foi a dor do ferrão sobre a pele ou a água a escorrer pelo seu rosto que a despertou daquele local tão estranho, mas a nítida sensação de que alguém a observava muito além. um outro lacrau, talvez.

4 de outubro de 2012

andrômeda


happiness soava a língua ao enxergar a palavra e um fio seguia veloz entre os murmúrios baixos das suas ideias; Ângela ergueu a cabeça para o teto, admirando o ventilador - estático - e entregou-se à uma roda temática interna sobre a sua felicidade.

a felicidade, um mar aberto, um sentimento trocado, uma noite quente; pequenos objetos, uma lembrança fosca, editada pelo conforto ou pela mágoa; esse imenso conjunto de gavetas semiabertas que deixava brilhar aqui e ali, tesouros que guardara ao longo da vida; assim contava o tempo, não em anos, mas através de uma constelação de detalhes esfumaçados.

sorriu quando teve a suspeita de estar ao centro de si.

22 de setembro de 2012

à francesa

achava muito apropriado que a tromba d'água viesse num momento como aquele, estava até mesmo satisfeita pois o acaso da natureza casava perfeitamente com seus fetiches de meio de tarde; mas estava correta, reta, o queixo pronunciado, limitada em sua função, presa numa crisálida de rotinas e horários: hoje teria meia hora, amanhã e depois - por Deus, até mesmo depois de depois de amanhã! - centraria os esforços em manter o "não há nada de errado" em seu próprio ninho; mas que maldade me fazer esperar tanto tempo, pensou, agitada, frenética, não era mulher de respirar pela boca por homem nenhum, muito menos por garoto;

ele veio, meio torto em suas pernas suadas e tênis coloridos, sem anseio; cheguei, e desviou os olhos pro lado feito um cachorro, procurou as palavras, mas ela tinha pressa, ela tinha necessidades e horários; já estava só de relógio, escrava das próprias enrascadas - desde sempre, desde pequena e burra a esquecer as bonecas por aí, e lembrá-las sem mágoa, perda reparável -  comeu-o por inteiro, esparramou-o pela mesa, faminta de si em perigo, mas completamente ausente de conservadorismos que - é verdade - às vezes tinha.

cúmplice, a chuva virou enxurrada, ensurdeceu as paredes, transbordou os minutos e cantou os trovões junto aos sussurros daquela coisa toda que acontecia; e quando veio o silêncio, ventou uma brisa muito fresca, talvez a mais fresca daquele dia, gelando no corpo o suor que já secava dentro das meias e do vestido; nos falamos depois, sim, um beijo e estavam outra vez esticados pela corda longa da rotina.