todos os dias imagino
se me imaginas cruel
a sorrir liberto, mirando o céu
todos os dias imagino
que segues construindo
uma vitrine de cristal
um lar manso feito de sal
[quando]
todos os dias me imagino
livre, caminhando contigo
voltando ao sonho, ao crime
todos os dias observo
centenas de pássaros em voo
e permaneço no chão
trôpego, atado pela razão
todos os dias este silêncio:
o piano, a boca, o peito
todos os dias
este sábado inacabado
20 de julho de 2014
22 de maio de 2014
Rosário II
Rosário,
difícil dizer o que me corrói; cerquei-me feito um louco de paredes confortáveis, e neste cubículo onde escondo minhas dúvidas disse hoje ao teto sobre as suas que também eram as minhas; e ainda estando tão lúcido, tão consciente - como se uma estrela brilhasse difusa em minha testa - há este último véu retirado que não me revelou nenhuma resposta sobre os sentimentos preciosos, encontrei no lugar ferramentas dispostas lado a lado: um binóculo e um espelho: Rosário, alguém em mim me diz que as pistas estão no futuro e no passado, e que à frente de mim e antes de mim permanece um eu de sobreaviso;
haverá futuro, Rosário, neste mar de observações feitas, nestas intensas descrições mentais dos afetos alheios, nesta prática diária de contemplação daquilo que chamo de amor? por vezes plástico, por vezes orgânico.
de um jeito ou de outro, não encontrei motivos hoje para o binóculo ou para o espelho.
D.
12 de março de 2014
ciranda
dançam no teto
todos os teus anjos
descem invisíveis
esticam os dedos, frios
ao calor das gargantas
amam, agigantando-se sobre os teus sonhos
e te sopram no rosto a mesma máscara que usam
e que não vês
tu és aquilo que jamais serão
do alto do teu altar perfumado
afiam o silêncio à minha presença
abrindo com ele a tua boca
e pondo aí uma aranha
segues mimético
preso ao realejo do sagrado
um pássaro indecifrável
todos os teus anjos
descem invisíveis
esticam os dedos, frios
ao calor das gargantas
amam, agigantando-se sobre os teus sonhos
e te sopram no rosto a mesma máscara que usam
e que não vês
tu és aquilo que jamais serão
do alto do teu altar perfumado
afiam o silêncio à minha presença
abrindo com ele a tua boca
e pondo aí uma aranha
segues mimético
preso ao realejo do sagrado
um pássaro indecifrável
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