4 de outubro de 2012

andrômeda


happiness soava a língua ao enxergar a palavra e um fio seguia veloz entre os murmúrios baixos das suas ideias; Ângela ergueu a cabeça para o teto, admirando o ventilador - estático - e entregou-se à uma roda temática interna sobre a sua felicidade.

a felicidade, um mar aberto, um sentimento trocado, uma noite quente; pequenos objetos, uma lembrança fosca, editada pelo conforto ou pela mágoa; esse imenso conjunto de gavetas semiabertas que deixava brilhar aqui e ali, tesouros que guardara ao longo da vida; assim contava o tempo, não em anos, mas através de uma constelação de detalhes esfumaçados.

sorriu quando teve a suspeita de estar ao centro de si.

22 de setembro de 2012

à francesa

achava muito apropriado que a tromba d'água viesse num momento como aquele, estava até mesmo satisfeita pois o acaso da natureza casava perfeitamente com seus fetiches de meio de tarde; mas estava correta, reta, o queixo pronunciado, limitada em sua função, presa numa crisálida de rotinas e horários: hoje teria meia hora, amanhã e depois - por Deus, até mesmo depois de depois de amanhã! - centraria os esforços em manter o "não há nada de errado" em seu próprio ninho; mas que maldade me fazer esperar tanto tempo, pensou, agitada, frenética, não era mulher de respirar pela boca por homem nenhum, muito menos por garoto;

ele veio, meio torto em suas pernas suadas e tênis coloridos, sem anseio; cheguei, e desviou os olhos pro lado feito um cachorro, procurou as palavras, mas ela tinha pressa, ela tinha necessidades e horários; já estava só de relógio, escrava das próprias enrascadas - desde sempre, desde pequena e burra a esquecer as bonecas por aí, e lembrá-las sem mágoa, perda reparável -  comeu-o por inteiro, esparramou-o pela mesa, faminta de si em perigo, mas completamente ausente de conservadorismos que - é verdade - às vezes tinha.

cúmplice, a chuva virou enxurrada, ensurdeceu as paredes, transbordou os minutos e cantou os trovões junto aos sussurros daquela coisa toda que acontecia; e quando veio o silêncio, ventou uma brisa muito fresca, talvez a mais fresca daquele dia, gelando no corpo o suor que já secava dentro das meias e do vestido; nos falamos depois, sim, um beijo e estavam outra vez esticados pela corda longa da rotina.

22 de agosto de 2012

Redenção

meus olhos castanhos abriram-se para o céu, cegos pela vida do Sol eterno, da luz perpétua; olhos insones, brilhantes esferas incapazes de admirar a luz das estrelas

meus olhos eram incapazes de ver o passado.

este manto frio que é a noite quando na condição solitária não caiu sobre os meus afetos; eu segurei forte nas coisas que acontecem somente após o amanhecer, embora todas elas estivessem ainda - e sempre - adormecidas quando delas necessitei.

houve um trânsito, uma lua escondida atrás de outra lua escondida atrás de um planeta; o tempo uivou baixo, atravessou as folhas e as persianas até que a verdade respirou fresca perto do meu rosto.